Missionis reformata, semper reformanda

Uma das grandes verdades que nos lembrou a Reforma Protestante é o fato que a Igreja Evangélica, mesmo sendo herdeira desse grande movimento histórico, e justamente como herdeira, precisa se reformar continuamente a luz das Escrituras.
O ser humano tem, de fato, uma tendência natural para o tradicionalismo, no sentido que os nossos hábitos se tornam leis para nós mesmos, os hábitos das comunidades em tradições. As tradições podem ser positivas, elas nos dão identidade e segurança. De fato, todas as culturas tem as suas tradições, os seus usos e costumes.

As tradições positivas são aquelas que não confrontam a Palavra de Deus, enquanto as tradições negativas precisam ser tiradas das nossas vidas quando chegamos a Cristo. Ademais, essas tradições positivas, que forjam a identidade de uma comunidade ou de um país, muda, por definição, de um lugar para um outro.

Eu, como francês, precisei me adaptar muito quando eu cheguei em Santo André, porque o jeito de viver a vida cristã, os costumes da igreja, tudo era bem diferente do que eu conhecia e vivia. Confesso que finalmente me adaptei até demais, o que percebi quando eu preguei pela primeira vez na França depois da minha volta do Brasil.

Aconteceu na igreja onde me converti a 8 anos atras, e meu pai estava presente neste dia. Me lembro que depois do culto, ele chegou com uma cara que conheço muito bem, quando ele quer falar algo não muito agradável. Ele simplesmente falou pra mim: “Filho, será que você precisa gritar assim ? Será que Deus não te escuta ? Será que somos surdos ?”

Nesta dia entendi uma coisa muito importante, que penso ser primordial para todos os missionários, em qualquer lugar do mundo. O Evangelho não muda, mais os costumes, que incluem tantas coisas como a maneira de pregar, o estilo das musicas, a liturgia… tudo isso muda, porque tudo isso não é o Evangelho. E ademais, o perigo está no fato de não entendermos essa diferença, e querermos impor para outros esses mesmos costumes. Isso não funciona, e sem perceber, nós criamos barreiras para a pregação da Palavra e a conversão de pessoas. Criamos as nossas próprias limitações…

Escutamos muito falar que a Europa é um campo difícil, que na França as pessoas são fechadas, mas como elas podem se abrir se nós mesmos não nos abrimos, não tentamos os entender, não tentamos mudar. A minha grande tristeza é ver que muitos missionários, condicionados a visão das suas comunidades no Brasil, passam longe do desafio pelo qual Deus os chamou aqui.

Quando vejo que eles não querer mudar os seus costumes, os quais são como leis imutáveis, eu simplesmente não consigo entender. Eu me lembro quando os meus irmãos não cristãos iam para igreja comigo, eles dormiam durante os 4 hinos em português, eles não entendiam porque a pessoa no púlpito gritava tanto. Foram anos de luta com minha família para que a conversão deles não seja prejudicada por causa desses confrontos culturais.

Podemos guardar os nossos costumes que amamos tanto, mas não sejamos hipócritas falando que amamos os perdidos… A verdade é que a Igreja Brasileira na França precisa de uma Reforma Cultural urgente, claro, se quisermos cumprir o nosso papel como Igreja. Ela precisa de uma Reforma Cultural, e aqueles que aceitam esse desafio sabem que as mudanças e os sacrifícios são grandes, mas que os frutos são preciosos. Espero que essa carta encontrará corações dispostos e humildes, da parte de um pequeno francês que conhece vocês e sabe que vocês podem revolucionar este país.

Deus abençoe grandemente !!

Por Jm Balmajou – Orleans França 

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